Do papel ao digital: o que o registro de imunização revela sobre o cuidado em saúde no Brasil
- Olivia Ferreira

- 20 de jan.
- 2 min de leitura
O cartão de vacina sempre foi visto como um simples comprovante. Datas, assinaturas, carimbos. Mas, quando observado com mais atenção, ele revela muito mais do que um histórico individual: mostra como um país organiza o cuidado, acompanha sua população ao longo da vida e transforma informação em ação no campo da saúde pública.
Essa inquietação deu origem à minha pesquisa de mestrado sobre a evolução do registro de imunização no Brasil. O tema, à primeira vista técnico, rapidamente se mostrou atravessado por escolhas estruturais e tensões recorrentes: papel versus digital, bases fragmentadas versus integração, registros pensados apenas para controle administrativo ou informações capazes de apoiar decisões em saúde pública.
Ao longo da pesquisa, ficou claro que o objeto de estudo não era apenas um sistema de informação. Era, na prática, um retrato da forma como a gestão da saúde se relaciona com dados, tecnologia e cuidado — desde a coleta da informação até sua circulação entre diferentes níveis de gestão.
A dissertação, publicada em 2024, analisou esse percurso histórico desde os primeiros registros manuais até as soluções digitais adotadas ao longo do tempo. O estudo evidenciou avanços importantes, mas também limites persistentes, especialmente quando se observa a dificuldade de integração entre sistemas e o uso efetivo dos dados na tomada de decisão. Esse processo foi construído com a orientação cuidadosa do meu orientador e amadurecido pelas contribuições da banca de avaliação, cujas provocações foram decisivas para aprofundar a análise e deslocar o olhar para temas como governança da informação e interoperabilidade.
Algum tempo depois da defesa, revisitei o texto com outro objetivo: torná-lo mais acessível. Com apoio de ferramentas como o NotebookLM, iniciei um exercício de tradução do conteúdo acadêmico para uma linguagem mais próxima de quem atua na gestão, na assistência ou simplesmente se interessa por saúde digital. Não se tratava de simplificar o tema, mas de torná-lo legível fora dos muros da academia, sem perder densidade.
Esse processo deixou ainda mais evidente que sistemas de informação em imunização acabam sendo muito mais do que simples repositórios de dados. Eles materializam escolhas sobre qualidade da informação, responsabilidades institucionais e capacidade de resposta do Estado. A forma como esses sistemas são desenhados influencia diretamente a vigilância em saúde, o planejamento de ações e a proteção da população.
Falar sobre dados de imunização, portanto, é falar sobre cuidado, equidade e confiança. Divulgar essa discussão também é reconhecer o caráter coletivo da produção do conhecimento e ampliar o debate para além do espaço acadêmico. No fim, a pergunta que fica é direta — e nem sempre confortável: estamos usando os sistemas de informação apenas para registrar vacinas ou para sustentar decisões que realmente fortaleçam a saúde pública?





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